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Os Vínculos Líquidos da Era Digital: Uma Perspectiva Psicanalítica

  • Foto do escritor: Vera Lúcia Belisário Baroni
    Vera Lúcia Belisário Baroni
  • 21 de ago. de 2023
  • 3 min de leitura

Publicado em: https://www.band.uol.com.br/band-multi/colunistas/os-nos-da-mente/os-vinculos-liquidos-da-era-digital-uma-perspectiva-psicanalitica-16622295


Os vínculos líquidos da era digital
Os vínculos líquidos da era digital

“Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar”. (Zygmunt Bauman)


Navegando pelas águas agitadas das relações humanas na era digital, é inegável que testemunhamos uma transformação profunda em nossas interações sociais e nos vínculos afetivos que desenvolvemos através dessas interações. Segundo o psicanalista Pichon-Rivière, os vínculos afetivos são moldados por situações específicas, contextos sociais e históricos, o que torna cada vínculo único e mutável. Considerando esses aspectos, o conceito de “relações líquidas”, cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman, se torna ainda mais atual e relevante. As relações humanas têm se tornado voláteis, efêmeras e facilmente descartáveis. Quando trazemos a psicanálise para essa reflexão, podemos começar a desvendar as camadas mais profundas dessas relações líquidas que permeiam a sociedade contemporânea.


Ao olharmos mais de perto, percebemos que as relações líquidas estão intrinsecamente conectadas à fluidez e à fragilidade dos vínculos afetivos. Através das redes sociais e aplicativos de mensagens, somos capazes de construir conexões instantâneas, mas, também, efêmeras. As amizades e romances são forjados com facilidade, mas podem se dissolver com a mesma rapidez. A psicanálise nos ensina que a natureza fluida dessas relações pode ser um reflexo do medo do compromisso profundo e da intimidade, uma fuga da vulnerabilidade e do risco emocional.


O advento da tecnologia também trouxe consigo um novo paradigma para a intimidade e a privacidade. As fronteiras entre o público e o privado se tornaram fluidas, e a exposição de nossa vida pessoal é agora a norma. Nas redes sociais, criamos personas cuidadosamente construídas para o público virtual. Essas identidades digitais muitas vezes não refletem nossa totalidade, mas apenas os aspectos que desejamos compartilhar. Atrás dos perfis cuidadosamente construídos, muitas vezes escondemos nossas angústias e medos mais profundos, perpetuando um ciclo de autenticidade questionável. A psicanálise nos alerta para os conflitos internos dessa prática: a perda da individualidade e a fragmentação da identidade, pois buscamos incessantemente aprovação e validação, mas, ao mesmo tempo, sentimos uma desconexão com nossa verdadeira essência.


Além disso, as relações líquidas estão intimamente relacionadas à cultura do descartável e à busca incessante por gratificação imediata. O ato de deslizar o dedo na tela de um smartphone para selecionar parceiros em potencial parece refletir uma mentalidade em que as pessoas são facilmente substituíveis e trocáveis. Essa falta de investimento emocional e a constante busca por novidades podem levar a um vazio existencial e a um sentimento de insatisfação crônica. A psicanálise nos alerta sobre o risco de nos apegarmos ao prazer imediato e evitarmos enfrentar as dificuldades interpessoais, negando-nos a oportunidade de amadurecer emocionalmente através do compromisso e da resolução de conflitos.


Em síntese, a psicanálise nos convida a uma profunda autorreflexão e à busca por uma compreensão mais profunda dessas relações líquidas. É essencial explorar a natureza fluida de nossas conexões e questionar se estamos verdadeiramente satisfeitos com essa superficialidade constante. A busca por relacionamentos significativos e conexões mais autênticas requer um mergulho nas profundezas de nossas emoções e uma disposição para nos comprometermos além das aparências digitais.


Portanto, à medida que navegamos nesse oceano de relações líquidas, vale a pena considerar o que realmente valorizamos em nossas interações humanas. Será que estamos dispostos a navegar além da superfície, a mergulhar nas águas mais profundas das emoções e a construir laços duradouros? Ou continuaremos flutuando na superfície, em busca de novas ondas que nos distraiam momentaneamente? A resposta está dentro de cada um de nós.

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Vera Lúcia B Baroni   Transformando vidas 

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